VAMPIRO MICHÊ

São Paulo, centro, uma cidade com muita, muita gente, aqui a noite tudo se transforma, em cada esquina um ser humano aguarda por alguém a procura de prazer, bem, nem sempre são seres humanos, Francis é uma prova disso. Ele, um michê, mas não qualquer michê, sua beleza é incomparável a de qualquer rapaz que possa surgir, é a promessa dos maiores prazeres para aqueles que o procuram, Francis anda muito bem vestido e com um único olhar chama a atenção de muitas clientes, sim, Francis tem preferências: mulheres. Sua hora é bem cara, se bem que o dinheiro não é o seu principal pagamento.
Francis é bem seleto com as suas clientes, ele as escolhe.
Francis gostava de lugares variados, ora caminhava pelo vale do Anhangabaú, ora passeava pela Paulista, Bela Cintra, muitos pontos incomuns para um michê, outros já conhecidos.

Numa noite de inverno a garoa insistia em molhar seus cabelos, estava agitado, uma leve fome invadia seu âmago, precisava saciá-la.
Olhou em volta e avistou uma possível cliente, ela o olhava de seu carro, um Fox preto, ele reparou que a mulher aparentava ter pelo menos 40 anos, seus cabelos louros e curtos estavam levemente desgrenhados, seus olhos azuis eram profundos numa olheira de noites e noites mal dormidas.
Resolveu olhar com mais atenção e sentiu que aquela seria a noite ideal. Aproximou-se furtivamente, a mulher abriu a porta do carro para que ele entrasse. Francis sorriu a deixando tonta, olhou para trás e reparou numa grande quantidade de papéis. Este poderia ser o motivo das noites mal dormidas.
Não conversaram muito, em geral, suas clientes reclamavam da vida, do marido, dos filhos, esta era diferente. Solteira. Uma mulher independente. Sozinha. Sua cliente era direta e só queria uma coisa: Prazer, apenas o prazer. Nada de conversas sobre sua vida. Francis entendeu bem que esta cliente era uma das especiais. Frias, diretas, nada de afeto, nada de necessidade de carinho, só o ato. Nada mais.
Chegaram a um motel não muito longe do centro, a cliente que se identificou apenas como Eym, Francis deu seu nome verdadeiro, não tinha porque esconder o seu nome, ainda mais de Eym, não era a primeira vez que ela procurava os serviços de um michê, porém, ele seria o primeiro do tipo de toda a sua vida.
Francis lhe deu a maior noite de prazer da vida de Eym, em troca ele pedira apenas uma coisa: que ela o ouvisse com toda a seriedade. Eym não queria conversa, queria apenas pagar o programa e ir embora, não passaria a noite no motel, Francis percebeu que Eym seria a cliente que o saciaria naquela noite, sua família a muito não se comunicava com ela, e sua vida era apenas o trabalho.
– Gostaria de te contar uma coisa – disse Francis interrompendo Eym que já retirava o talão de cheques da bolsa.
– O que você quer me contar? – perguntou ela com um sorriso lânguido, porém falso.
– A história da minha vida – respondeu com um sorriso brilhante.
– E por que quer fazer isso? Conte para outra, eu disse que não tinha muito tempo, que tudo deveria ser rápido. – disse com certa rispidez, não sentia mais a necessidade de sorrir para o michê a sua frente.
– Serei rápido. Prometo – Francis respondeu perdendo o sorriso do rosto e ganhando uma ruga de frieza em seu olhar. – Sente-se Eym, lhe contarei o maior segredo de minha vida.
Eym pareceu se interessar. Olhou rapidamente para o relógio e se sentou na bela cadeira próxima a cama. Ela se preparou para ouvir o que Francis tinha a contar.
– Sou um vampiro. – disse ele. – Não, não ria. É verdade! Olhe. – deu um grande sorriso mostrando as belas presas. – Ainda não acredita? – disse triste ao ver a risada de Eym. – É, já vi que vou ter que recorrer a algo menos higiênico. – disse mordendo o pulso.
Sangue, ferimento e cicatrização.
Eym ficou apavorada e tentou fugir, Francis a conteve.
– Ah, agora você acredita! – Eym soluçava apavorada no abraço de ferro de Francis – Não tenha medo, não mordo. Quero dizer, mordo. Mas não o seu pescocinho. Não agora – disse prendendo Eym na cadeira.
– Querida não chore, já disse, só quero lhe contar a minha história. Por favor, ouça-a. – apoiou-se nos braços da cadeira de frente para Eym, segurando seus pulsos já amarrados.
Eym respirava forte, trancou o choro ao levar um tapa de Francis. Neste momento achou estar num grande pesadelo, faria o que ele pedira e ouviria a sua história.
Francis, mais uma vez soldou a mente de Eym para ter certeza de seu caráter e de sua vida. Sorriu. Aquela era a noite, realmente se saciaria.
“Sou ainda novo, só faz 50 anos que fui transformado, somando isso a idade que eu tinha na época, tenho 75 anos. Ah, tudo bem, não sou mais nenhum jovem, mas o que importa? A minha aparência é de 25, a melhor idade. Mas voltando, eu era um simples jornalista, eu trabalhava com reportagens investigativas…
– Querida! Já disse para parar de chorar… Isso, assim. Relaxe, eu só te dei uma mordidinha leve, nem suguei o seu sangue ainda…
“Continuando, eu estava caminhando pelo antigo centro de São Paulo, naquele tempo, aquele era um lugar sombrio, mas mantinha a sua beleza,  não era abandonado e sujo como é hoje; foi quando eu me encontrei com um velho informante, ele sempre me dava dicas quentes sobre algum chefão do crime, ou bandido procurado, ou ainda sobre algum plano de roubo. Ao vê-lo, estranhei a sua palidez, o homem estava mais branco que papel. – sorriu. – e não foi só isso que estranhei, ele também estava mais altivo, não mais falava sussurrando. A coragem parecia ter-lhe invadido o corpo.”
– Querida acorde! – disse Francis ao ver que Eym havia perdido os sentidos. – Ah, vai, foi só uma mordidinha no dedo, não se assuste tanto – intimou ao ver Eym em pânico – e continue ouvindo, por favor, não vê que estou abrindo o meu morto coração para você? – disse com ironia.
“O meu informante me garantiu que um chefão do crime topou em me dar uma entrevista exclusiva, desde que eu o encontrasse naquele exato momento. Claro que topei na hora, sem nem pensar no assunto, fui um idiota completo ao confiar no meu informante. – lamentou-se. – Ao chegar ao meu destino, uma bela dama me esperava. Nunca tinha isto uma mulher de beleza tão encantadora, ela me atraia como uma sereia que atrai os marinheiros no mar: para a morte certa. Ela me atacou com um abraço de ferro, era uma força descomunal, tentei me soltar, mas era como lutar contra uma estátua de mármore. Meu desespero aumentou quando ela me mordeu e começou a sugar o meu sangue.”
– Querida, preste atenção, por que está com esse olhar vazio? Tome um pouco de água – disse colocando um grande copo na boca de Eym. – Opa! Não engasgue! Desculpe, esqueci que os humanos respiram. – Eym estava cada vez mais fraca, Francis a torturava aos poucos. – Pare de chorar enquanto você ainda tem oito dedos nas mãos, pronto, assim…
“Mas continuando, enquanto a bela dama sugava o meu sangue, fiquei tonto de prazer e senti a minha vida se esvair, mas não senti medo, apenas sorri. A linda mulher, surpresa, sentiu compaixão, se é que isso é possível num vampiro – sorriu – e me trouxe a vida noturna, eu a amei enquanto eu pude. Nossa relação não durou, agora estou aqui conquistando as minhas vítimas como um garoto de programa, ou michê como me chamam por aí. Claro que não ataco qualquer cliente, a maioria eu deixo sair ilesa, com apenas umas gotas de sangue a menos depois de uma boa ressaca de bebida e saiba que não é difícil atrair muitas clientes,  e como você deve ter percebido querida, a minha beleza atrai qualquer cliente em potencial, como atraiu você. E agora que você conhece a minha história e o meu pequeno segredo temo que a nossa curta relação tenha que chegar a um fim.
Eym ao ouvir o final da história sorriu.
– Ah querida, você está sorrindo para mim? Pelo visto você ouviu mesmo a minha história, mas tenho uma notícia triste para lhe dar: sorrisos não me atraem ou me deixam surpreso, sorrisos como o seu só me mostram como o ser humano é capaz de ser ardiloso. Uma coisa eu omiti na minha pequena história. Alguns vampiros podem ler pensamentos, como no meu caso e na hora da morte todos se lembram de tudo que fizeram na visa, coisas boas e ruins. No meu caso, as coisas boas que fiz atraiu a minha criadora, no seu, não existe muito de bom para se ver, nem de interessante, especial talvez, professora, solteira… – Francis beijou mais uma vez o pescoço de Eym que se entregava já sem esperança.
– Um sangue delicioso… Querida? Querida? Ah tão rápido. Isso é o que dá se deixar contratar por mulheres em eterno regime. São fracas. Não duram nem dez minutos depois de uma história bem contada, isso por que fui até gentil com ela, depois de ver o verdadeiro caráter de sua alma. Uma pena. A noite é uma criança e estou inspirado, acharei outra dama com uma alma deplorável e a libertarei dessa vida enfadonha…
Andréa Cisne

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