Segredos de uma Vida Maldita

Deixo essas linhas escritas para explicar a maldição da minha vida. Tudo começou no mês de Janeiro de 1988, eu tinha vinte anos e trabalhava numa copiadora, eu era encarregada de manusear aquelas velhas máquinas, digo velhas porque o eram mesmo, nada era automático como hoje. Eu voltava para casa de trem, tudo para economizar duas passagens por dia, sina de quem mora em outra cidade.
Ah, já disse que moro no interior? Não revelo aqui a minha cidade, pois o que eu vou contar é um segredo que deve ser mantido em sigilo, inclusive certos detalhes. Mas continuando, eu estava na estação de trem e lá conheci um rapaz muito bonito, ele sempre pegava trem naquele horário, ele era bem estranho, um tanto pálido, mas simpatizou comigo num dia em que trocamos uma conversa, não demorou muito e já estávamos meio que enamorados. Nos víamos duas vezes por semana. Numa bela noite o convidei para irmos à minha casa e apresentá-lo à minha mãe, irmão e padrasto. Quanto ao meu padrasto, nunca o chamei de pai, pois ele nunca o fora, ele nunca me tratou como uma filha, muito pelo contrário, ele sempre me olhava de forma esquisita, quando eu tinha dez anos ele tentou fazer coisas comigo, coisas que eu nem tenho coragem de detalhar aqui, ele só desistiu porque meu irmão mais velho interferiu e desde aquele dia sempre me protegeu, me levando com ele para onde ia. Fui praticamente criada com meninos. Mas, retornando ao belo rapaz que conheci, o apresentei à minha família e logo de cara o meu padrasto não gostou dele.– Depois não reclama se essa aí aparecer de barriga. — dizia meu padrasto aos cochichos com a minha mãe que pobre coitada só tentava amenizar tudo.Eu nem dava bola ao que ele dizia, aquele cara só tinha uma coisa na cabeça: um monte de dejetos pútridos. Lohan parecia de percebido isso e com um único olhar, meteu medo em meu padrasto, um homem gordo e acabado, contra a belíssima forma física de Lohan.

Ele ficou em minha casa até tarde, nos despedimos no portão com um longo e apaixonado beijo. Quando eu entrei, ouvi a ladainha vinda de Carlão, meu padrasto.

– Não gostei dele! Cara mais pálido, magro, deve ser drogado ou aidético. Cuidado para não pegar Aids hein Lilian. Realmente você merecia coisa melhor.
– Alguém como você Carlão? — perguntou Lucas, meu irmão, fazendo alusão àquele dia em que ele tentara me violentar.

Carlão ficou calado, fechou a cara e foi deitar. Minha mãe, coitadinha, não entendera nada, nunca contamos a ela sobre o que ocorreu, pois todos nós dependiamos de Carlão, mamãe inclusive. Ele sustentava a casa, minha mãe tivera uma filha com ele, mas esta morreu quando fez três anos, nunca soubemos a causa da morte, ela simplesmente morreu dormindo.
Eu e Lohan nos encontramos mais algumas vezes, eu evitava levá-lo em casa.

– Diga-me Lilian, por que ainda moram com ele?
– Ele quem?
– O Carlão. Como a sua mãe pode ficar com alguém como ele?
– É complicado Lohan. Apesar de tudo ele nunca deixou faltar nada em casa.
– Apesar de tudo o quê?
– Apesar de ser um escroto.
– Sei. Pensa que eu não percebi o olhar dele naquele dia? Ele me olhava como um rival, como se você fosse dele e eu quisesse tomá-la.
– Lohan…
– Lilian, sei que tem muita coisa que você não me disse e nem vou obrigá-la  a dizer, mas conheço bem o tipo do Carlão e sei que ele não te vê como filha, ele te olha de cima para baixo como um lobo sedento.
– Lohan, realmente ele nunca me olhou como uma filha, mas também nunca conseguiu encostar um dedo em mim…
– Nunca conseguiu? Então ele já tentou algo?
– Já. Mas não se preocupe, tenho um bom defensor em casa. Lucas…
– Eu sabia! Aquele cão infernal só aguarda para te ter em suas garras!
– Mas nunca o fará, Carlão é como um cão que só ladra e não morde. Além disso, minha mãe nem sonha com essa situação e no que depender de mim jamais o saberá.
– Me diga, e o seu pai verdadeiro? O que aconteceu a ele?
– Morreu num acidente de caminhão, ele era caminhoneiro. Sabe, eu o amava, ele era tão bom com a gente, tratava a minha mãe com tanto amor, éramos todos tão felizes.
– E como aquele escroto veio parar na sua família.
– Ele era amigo de meu pai, faziam sempre viagens em comboio, foi ele inclusive que levou meu pai ao hospital ainda com vida e foi ele também que tomou todas as providências quando meu pai morreu, pagou despesas de enterro, essas coisas. Ele consolou a minha mãe, eles se aproximaram e deu no que deu.
– Acho que ela nunca o amou.
– Nunca mesmo, a minha mãe confundiu gratidão com amor e quando percebeu era tarde. Já estava casada com ele. Carlão a fez sair do emprego quando minha irmãzinha nasceu, mas quando ela morreu, Carlão ficou pior comigo e com a minha mãe, passou a nos destratar e até insinuava que eu matara a minha irmãzinha por ciúme, pode?
– Realmente ele é mais que um escroto, é um saco de carne podre! Lilian vou te prometer uma coisa: Se algum dia aquele desgraçado encostar em um só fio de cabelo seu, e juro que acabo com a raça dele!
– Não se preocupe, isso não vai aconte…
– Lilian, me prometa: Se algum dia aquele cão encostar em você, você não hesitará em me chamar, me chame, mesmo que em pensamentos, mas me chame.
– Mas…
– Prometa-me!
– Tá, eu prometo.

Fiquei realmente sem ter o que dizer diante do que Lohan me disse. Ele parecia saber de todos os meus segredos, e, ao me ouvir contando-os, foi como se apenas estivesse tendo uma confirmação ao que já sabia.
Realmente eu me sentia segura com Lohan, eu o amava, apesar de ter vinte anos, ele era o meu primeiro amor, não sei se ele já tinha percebido a minha condição de, digamos, virgem, mas acho que desconfiava, pois ele sempre me tratara com um respeito fora do comum, toda vez que eu sentia ele passar dos limites, imediatamente ele se freava.
Um dia nosso namoro estava quentíssimo, eu estava despreocupada, minha família estava bem, Carlão estava fazendo um serviço de caminhoneiro em outro estado, eu estava feliz. Estávamos numa praça a noite, ele me abraçou e murmurou frases de amor, eu ardia de desejo, queria que ele me possuísse lá mesmo. Ele me apertou contra o seu peito, me beijou intensamente e depois roçou o meu pescoço com sofreguidão, senti uma pontada, gemi num misto de medo e prazer, ao perceber, ele se refreou, me afastei dele com falta de ar, sem saber ao certo o que estava acontecendo, estava muito escuro, mas consegui reparar em seus dentes que pareciam ser presas, além do olhar vibrante mas logo desencanei, ao olhar de novo e vê-lo normal, coisas da minha cabeça…

– Me desculpe, perdi o controle.
– Tudo bem. Não se desculpe.
– Eu preciso, pois quase te machuquei.
– Ah, eu não ligo, essas coisas acontecem. — concluí na minha completa inexperiência.

Lohan apenas sorriu de maneira agradável e me lançou um olhar terno, bem diferente do olhar que tinha quando me soltou.
Nos despedimos em frente ao portão de casa, meu padrasto estava na janela e só o percebi quando entrei e ele soltou:

– Que é isso no seu pescoço? Virou vadia agora? Até chupão ta levando!

Passei a mão no pescoço, realmente senti algo, dor e prazer, lembrei do beijo de Lohan ao senti a minha pele com as mãos e percebi que havia uma pequena inchação. Corri para o banheiro para ver no espelho, eram duas pequenas marcas roxas. Meu padrasto apareceu na porta.

– Que descuido, hein? Seu namorado deixou uma marca e tanto, eu fazia sempre isso com as vadias, só para o próximo saber que ela já tinha sido de outro…
– Não enche Carlão! Cadê a mamãe e o Lucas?
– Ah é, você não soube…
– Eu não soube o quê?
– Da tua mãe, ela passou mal, Lucas a levou para o hospital ainda há pouco. Achei um bilhete na porta quando cheguei: “Lilian, não fique aqui, estarei fora com a mamãe, vou levá-la ao hospital”. Por que será que Lucas não queria que você ficasse em casa sozinha? — cantarolou com uma voz embevecida.

Fiquei com medo de Carlão, já sabia o que ele pretendia. Ele entrou ainda mais no banheiro, tentei sair, mas ele me bloqueou, ele estava com bafo de bebida, estava bêbado provavelmente.

– É, acho que ele tinha razão, seu irmão é um rapaz inteligente, pena que não pensou que eu pudesse chegar antes de você ler esse pequeno aviso. — disse me empurrando ainda mais para dentro do banheiro. — Vai ser aqui, não há melhor lugar nesta casa além do bom e velho banheiro.
– Carlão, pára de brincar! Vou contar à mamãe! Não vejo a hora de ela te largar…
– Ela sabe, já contei a ela sobre nós, um pouco antes de ela passar mal, a mulher quase caiu durinha. Tive de sair de casa às pressas quando Lucas chegou, o idiota nem viu que eu tinha chegado…

Fiquei horrorizada, ao ouvir a palavra “nós”, não quis acreditar nas mentiras dele. Sabia que ele só queria me atingir, ou não.
Ele se aproximou e senti um tapa fortíssimo no rosto, caí no chão, a minha vista escureceu, senti um peso sobre o meu corpo acompanhado de um cheio de suor com bebida, Carlão estava sobre meu corpo, percebi que ele estava excitado, tentei gritar, mas fui calada com um soco, senti um gosto de sangue na boca, o meu pescoço começou a doer, pensei em Lohan e em meus pensamentos pedia socorro a ele. Tudo em vão. Carlão rasgou a minha blusa e me lambeu, chorei de nojo e ódio, queria que ele morresse. Por fim ele levantou a minha saia e arrancou a minha roupa de baixo, ele conseguiu o que queria, eu já estava sem ar com o peso dele, não conseguia mais chorar.
Os cachorros da vizinhança latiam freneticamente, ouvi um barulho, a porta, não a tinha trancado, tentei em vão me libertar, mas eu já estava sem forças. Fechei os olhos desejando que aquilo terminasse logo. De repente ouvi um barulho mais forte, senti o peso de Carlão desaparecer. Ele foi tirado de cima de mim e lançado no corredor. Lohan o tinha tirado de cima de mim, Carlão estava com as calças arriadas e olhava incrédulo para nós.  Eu chorava muito, Lohan viu a minha roupa rasgada e as marcas no meu rosto e ficou completamente transtornado.
– Desgraçado! O que fez a ela?
– Você não sabe? — disse Carlão com total desdém enquanto tentava erguer as calças.

Lohan ia para cima dele, quando gritei para parar. Carlão sumiu do corredor, Lohan me ajudou a sentar sobre a tampa do vaso, enquanto isso Carlão aparecia em seguida com uma arma, Lohan só teve tempo de ficar na minha frente, de costas para Carlão, ouvi um estouro, Lohan fez uma expressão de dor e raiva, seus olhos mudaram completamente, de sua boca ecoou um urro brutal, senti muito medo e certa dor.
Lohan olhou bem para mim e se virou para Carlão, que se assustou, pois o tinha acertado em cheio e nada aconteceu. O que se deu em seguida foi um misto de horror, vingança e alegria.

Lohan simplesmente agarrou Carlão pelo pescoço, ouvi a palavra demônio vindo de sua boca suja segundos antes de Lohan o bater várias vezes contra a parede, Carlão caiu inerte, morto provavelmente. Lohan se aproximou do corpo e sugou seu sangue com intensidade.
Eu caí sentada no vão entre o vaso e o Box, meu peito ardia, me encolhi, Lohan se aproximou bem devagar, quando eu o olhei percebi o que ele era: um vampiro. Eu não sabia se aquilo era sonho ou não, só me sentia cada vez mais fraca, olhei para as minhas pernas, estavam com sangue, muito sangue, meu peito sangrava, o tiro atravessou o corpo de Lohan e me acertou parcialmente.
Lohan vendo isso me pegou no colo, eu tentei sair de perto, ele se entristeceu, apenas tirou a bala cortou o pulso e colocou um pouco de seu sangue sobre a ferida que se curou completamente. Voltou a me colocar no chão e se virou para ir embora.

– Não vá! — gritei — fique!

Ele parou surpreso.

– Não está com medo de mim?
– Tenho mais medo dele! — disse apontando para o corpo de Carlão.
– Está morto — disse com desdém
– Pior ainda! Não quero ficar sozinha com esse corpo! — Falei chorando.

Lohan voltou a ter a mesma expressão serena. Fiz menção de apontar a mancha de sangue em seu rosto, mas ele mesmo percebeu e se lavou na pia. Eu continuava num canto totalmente descomposta, vítima de um estupro.
Lohan me ajudou a levantar e viu a minha situação, depois olhou para o lado, meio que desviando o olhar. Ele ligou o chuveiro e agarrado a mim me ajudou a lavar todo aquele sangue. Se molhando também. Toda a sujeira cairia ralo abaixo, mas uma mancha ficaria para sempre na minha alma, a lembrança do maldito Carlão me estuprando. Eu mal conseguia andar, ele foi o meu apoio, tirou o corpo para passarmos pela porta, eu estanquei.

– Cão maldito! Não te bastava a minha mãe, você queria também a mim, conseguiu e agora vai pagar no inferno! — chutei o corpo — você vai apodrecer e nem a terra vai querer os teus restos! — praguejei aos prantos.

Fui ao quarto que dividia com o meu irmão e troquei de roupa rapidamente, Lohan ficou do lado de fora me esperando na porta. Senti uma pontada no peito, não existia mais ferida, mas era como se ela ainda estivesse lá.
Ouvi um barulho, meu irmão tinha chegado e para a sua surpresa, Lohan o recebeu, vi os dois conversando, passei por ele e abracei o Lucas aos prantos. Lohan lhe explicou tudo, menos o fato de ter levado um tiro, ele escondeu o marca do ferimento vestindo uma jaqueta que achou nas coisas de Carlão. Lohan disse que ao empurrar Carlão este bateu a cabeça na parede do banheiro.
Lucas nem ligou para o que acontecera ao Carlão, mas ficou revoltado ao saber o que aconteceu comigo.

– Aquele desgraçado! Se não tivesse morrido eu mesmo o mataria! Mamãe me contou umas coisas…
– Mamãe? Ela está bem? — interrompi-o.

Lucas ficou calado, eu sentia a angústia dele.

– Vamos fale, como a mamãe está?
– Está bem por enquanto, mas ela está muito deprimida, Carlão contou coisas horríveis a ela. Por isso ela passou mal.
– Eu sei, aquele desgraçado me disse.
– Isso não é tudo, resolveram fazer alguns exames e descobriram que a mamãe está doente…
– O que ela tem?
– Suspeitam que ela esteja com um tumor no cérebro.
– Ah não! — exclamei aos prantos — Não a mamãe! Logo ela que é tão boa! — senti uma dor mais forte no peito, minhas pernas ficaram moles, Lohan me amparou.
– Lilian! — gritou Lucas.

Lohan me carregou até o sofá, lá eu sentia pequenos espasmos, Lohan pediu para Lucas trazer água com açúcar e me contou que meu ferimento era mais profundo do que ele imaginava e que eu iria morrer. Fiquei com medo, eu não queria morrer, não ainda, minha mãe precisava de mim, mais do que nunca.
Lucas me trouxe água, bebi devagar e senti gosto de sangue na boca, Lohan viu que eu estava muito mal, meu coração doía muito.
Fui levada ao hospital. Lohan acompanhou-nos, fiz uma bateria de exames, os médicos não sabiam dizer ao certo o que eu tinha, mas ao fazerem o ultra-som, perceberam que meu coração estava ferido com uma perfuração estranha.
Mamãe estava internada neste mesmo hospital, ela veio me visitar e chorou ao me ver. Senti que ela estava muito triste, mas feliz ao me ver. Ela me disse que estava bem e que o tumor em sua cabeça era benigno, eu sabia que era mentira, minha mãe era péssima mentirosa, mas fingi acreditar. Nos abraçamos. Médico e enfermeiros entraram no quarto onde eu estava. Começaram a mudar os tubos para me colocar numa maca. Eu iria ser operada. Me colocaram num quarto isolado, chamei por Lohan e ele apareceu.

– Lohan, por que me escolheu? — perguntei enfraquecida.
– Escolher? Não entendo a sua pergunta.
– O que viu em mim?
– Lilian, existem coisas que a gente não explica. Gostei de você e a partir daí comecei a ir naquela estação só para te ver, você me fez sentir humano e isso é muita coisa para um vampiro absorver sem se sentir balançado.
– Não quero morrer, me ajuda. — sussurrei
– A única ajuda que posso lhe oferecer tem haver com a morte, a morte para a vida humana. Isso significa nunca mais ver a luz do sol e nem a sua família.
– Nem para me despedir?
– Se eles souberem, jamais descansarão e você nunca mais poderá vê-los, nem de longe, ou você sofrerá vendo-os envelhecer e morrer, pois as eras passarão como brisas para você.
– Conheço as lendas. — interrompi.
– Então está disposta a abrir mão desta vida, para viver uma vida noturna? Uma vida que depende de outras vidas para viver, uma vida maldita que não é morte e nem vida?
– Tudo o que não quero é morrer. E se para isso eu precisar viver essa vida, eu aceito. — falei decidida.

Lohan assentiu, olhou em volta e retirou o cateter que estava em meu pulso, começou a sugar o sangue que saia dele, sugou bastante a ponto de eu me sentir tonta. Depois ele recolocou o cateter no lugar e me beijou, um beijo quente, senti um gosto forte de sangue que aos poucos se tornava doce.
Senti uma sensação indescritível, era como se todas as moléculas do meu corpo brigassem entre si, sensação de morte, sensação de vida, eu não sabia ao certo, meu coração bateu forte, meu peito pulava, o ar faltava, ouvi um apito. Senti a presença de Lucas, senti chero de medo. Talvez do fosse o cheiro do meu próprio medo. Lohan me disse que primeiro eu teria que morrer para nascer, eu não entendi ao certo, mas confiei nele, vi enfermeiros entrar, Lohan não estava mais lá.
Pensei ter apenas sonhado. Senti um sono profundo, fechei os olhos e dormi, mais tarde acordei, não conseguia me mexer ou abrir os olhos, mas meus ouvidos ainda captavam o som, ouvi o choro da minha mãe, Lucas a amparava, senti seu cheiro. Fui removida, para um lugar estranho. Muitas pessoas se aproximaram, era o meu velório, Lohan estava lá, sussurrou que voltaria no outro dia, ao anoitecer.
Ouvi uma última voz antes de cair num sono profundo: Lucas, ele sussurrou em meu ouvido que sabia de tudo e que viu o que Lohan me fez e, por fim, disse que cuidaria de mamãe e que eu seria bem vinda para revê-los. Senti uma felicidade imensa e caí num sono sem sonhos.
Anoiteceu, meu corpo inteiro vibrava, era estranho me sentir daquele jeito, abri os olhos e tudo estava escuro, bem sabia onde estava: enterrada. Senti-me sufocada, mas não por falta de ar, mas pelo aperto, um tipo de claustrofobia. Bati na tampa, queria sair. Ouvi uma voz, mas esta não vinha de fora, estava dentro da minha cabeça, era Lohan.

“Estou chegando até você, não se desespere.”
“Me tire daqui!” — gritei em sua mente.

Senti a tampa afrouxando, Lohan me desenterrou, saí daquele caixão num pulo, eu estava apavorada.

– Calma! O que pensou? Achou que ia morrer?
– Achei!
– E está certa, você está morta. — disse me puxando de meu esquife.
– Agora que você falou, eu me lembrei. Sou como você.
– Isso! e como eu, precisa se alimentar ou secará.
– Me alimentar? Então essa inquietação, essa dor, isso é a tal fome de sangue.
– Sim e se você não saciá-la, ficará incontrolável. Venha, vou ajudá-la, você precisa aprender algumas coisas.

Lohan me ajudou, saímos do cemitério, não fomos vistos, olhei em volta, tudo era tão diferente, os cheiros, brilhos, conseguia ouvir uma aranha tecendo uma teia, era incrível! Continuamos a andar, a rua estava completamente deserta.

– Venha, temos que ir a um lugar mais movimentado.
– Me leve para fora desta cidade. — sussurrei ao ouvir vozes conhecidas ao longe.
– Não se preocupe, farei isso, vamos. — disse me levando a um carro.
– Você tem carro? Por que pegava metrô?
– Precisei pegar apenas um dia, mas te conheci, daí eu peguei gosto — disse sorrindo.

Entramos no carro, fomos em direção ao centro da cidade, reconheci as várias árvores que enfeitavam o canteiro central, paramos numa rua movimentada, área de balada, um monte de jovens curtindo a noite.
Fomos a uma casa noturna, confesso que estranhei bastante, nunca fui dada a essas festas malucas, eu sempre gostei de ficar em casa e agora eu estava lá, naquele lugar e me sentia extasiada, mas não com as luzes ou o ambiente, mas com os odores, cheiros inimagináveis, eu senti um cheiro levemente doce, outros mais ocres, Lohan me explicou o que era cada cheiro e percebi que as pessoas exalavam cheiros das sensações que sentiam, algo ligado aos seus hormônios. O cheiro da atração sexual era o que mais emanava naquele lugar e me deixava inquieta, aumentava o meu apetite, senti meus olhos diferentes, o ambiente estava ficando mais claro.

– Calma Lilian, evite fazer isso, seus olhos estão faiscando.
– Então é isso que acontece?
– Agüente mais um pouco, logo trarei alguém, mas é peciso paciência e sorte.
– Sorte?
– Sim, sorte de achar alguém que tope sair conosco. — disse se levantando e indo em direção a pista de dança.

Fiquei apenas observando e logo vi Lohan dançando com uma bela garota, fiquei mordida, literalmente de ciúme. Mas logo fiz o mesmo e encontrei um belo rapaz para me fazer companhia. Eu me sentia mais bonita, atraia olhares, logo o rapaz estava caidinho por mim, era um moreno alto e bem forte, começamos a nos beijar, fui até  seu pescoço, ele sentiu uma pontada e logo reclamou.

– Calma gata! Quer me devorar?
– Talvez. — respondi fora de mim, me sentindo inebriada com o cheiro do rapaz.
– Que tal se fizéssemos isso num lugar mais calmo? — disse me puxando.

Olhei para Lohan e ele consentiu com um olhar. “Seja rápida e se tiver problemas me chame” — disse em pensamentos.
Fui com o rapaz, ele me levou a um motel não muito longe, provavelmente queria voltar logo para pegar mais meninas, os vidros do carro eram bem escuros, não teria problemas em sair dirigindo sozinha.
Fomos a um quarto e o rapaz começou a me beijar, senti um prazer incrível ao tocar em sua pele, beijei-o, comecei a comandar as carícias e logo estávamos transando, mas não senti absolutamente nada, apenas a sensação ruim que Carlão me fez sentir, logo senti um ódio crescer e o agarrei com força, ele sentia prazer com a minha atitude e se deixou pegar, mirei sua jugular e tomei pela primeira vez o líquido da vida.  O rapaz entrou em desespero, me chamou de diabo, clamou pela vida, seu medo me extasiava ainda mais. Uma explosão vinha em meu corpo, logo me senti viva, quente, o êxtase tomou conta de mim, o rapaz logo amoleceu em meus braços e o deixei cair, quando a sensação de prazer passou, me dei conta do que fiz, tirei uma vida, o rapaz estava morto, caí em depressão e chorei como uma criança. Achei que iria gostar, mas a consciência pesava em tudo. Me dei conta de que a minha vida de agora em diante seria maldita. Chamei Lohan em meus pensamentos, não demorou e logo ele estava junto de mim.

– Eu matei Lohan. Matei e gostei! — disse aos prantos — eu sou um monstro!
– Sim minha querida, você o é! Assim como eu o sou. Não somos mais humanos, somos feras da noite.
– Mas e essa consciência que me corrói?
– Com o tempo ela vai corroer menos, ficar mais branda a ponto de quase não senti-la gritar. Sei disso bem. Agora vamos, precisamos ir, logo vai amanhecer.

Usamos o carro do rapaz para sairmos do motel, nem perceberam que o rapaz que dirigia o carro era outro.
Agora sabia mais do que nunca o motivo de jamais voltar a ver a minha família, mesmo o Lucas sabendo de tudo, nunca mais poderei vê-lo. Tenho medo de que esta fera que agora mora em mim não mais o reconheça como irmão.
A Lilian morreu, morreu para o mundo ensolarado, agora essa que aqui vos fala agora se chama Lara. Caminho pela noite lamentando a maldição da minha vida, a cada dia a consciência clama menos, por isso não posso mais ver aqueles que eu amo.
Já se passaram vinte anos, a internet está dominando o mundo, meu irmão está a minha procura, ele nem sabe que me achou, somos amigos num chat, acho até que ele desconfia de algo, pois me dá notícias de todos, minha mãe faleceu dez anos após a minha suposta morte e não foi o tumor que a matou, Lucas se casou e eu soube que tenho dois sobrinhos gêmeos de doze anos, um menino, o Junior e uma menina chamada Lilian em minha homenagem. Lucas me mandou algumas fotos, dizendo que se algum dia achasse a irmã, mostraria a ela. Às vezes desconfio que ele sabe de mim, mas decidi jamais contar a ele.

A minha vida agora se resume nesta eterna maldição da noite, naquele dia no meu leito de morte, pedi por ela, e agora pago a cada noite em que me refugio antes que amanheça. Meu único consolo é o Lohan, nos amamos e compartilhamos a nossa desgraça.  Ele não sabe que me comunico com meu irmão e nem que o protejo e a sua família de longe. Prefiro assim, tem coisas que só devem ser ditas em último caso.

Espero que aqueles que agora conhecem a minha história pensem bem antes de sair à noite, pois esta me pertence e não só a mim, mas a todos como eu. Tome cuidado, a morte está à espreita e esta tem a forma de um belo rosto.

Andréa Cândido ©- Todos os direitos reservados
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Andréa Cisne

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1 resposta to “Segredos de uma Vida Maldita”

  1. Faith Nevill Camsutenda disse:

    Ela tem exatamente a idade que eu tinha quando decidi que um dia moraria em outro país…

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