Inimigos naturais

Alguém poderia acreditar numa relação de amor entre inimigos naturais? Pela lógica seria como ver uma serpente amando uma águia, enquanto esta a carrega para alimentar seus filhotes — Impossível seria o amor entre eles.

Imagine então o amor entre dois predadores diferentes de qualquer outro que você pudesse imaginar dois predadores inimigos um do outro. Esse amor existiu, quer dizer, existe! E eu faço parte dele.Você pode estar se perguntando do que estou falando — muito justo — Estou falando do amor entre duas criaturas cuja única finalidade entre elas é se destruírem. É meio complicado de explicar, mas tentarei fazê-lo sem rodeios. Estou falando de duas criaturas que a humanidade a muito se esqueceu incorporando-as em seu folclore com meros mitos.

Eu falo entre o amor entre uma vampira e um lobisomem. Mas calma. Esse amor não surgiu de uma maneira tão comum, ele surgiu de uma relação ao acaso em que Silvia — sim, esse é o meu nome — se apaixonou perdidamente por um mortal. Agora que falo de mim, posso me encaminhar para a primeira pessoa, essa é a minha perspectiva e assim o farei.

Foi em 1912, a tensão entre os países era evidente, uma única morte foi a responsável pela explosão de uma guerra de proporções mundiais.

Para nós não era difícil viver numa época assim, nada disso, essa era uma época farta para nós os vampiros, isso mesmo, eu sou uma e, modéstia parte, tenho idade suficiente para ter visto pelo menos dez gerações de sua família. Naquele tempo uma morte a mais ou a menos nos campos de batalha não fazia diferença e era neste lugar que eu procurava me banquetear, claro que eu escolhia somente aqueles mais vulneráveis, os fracos e os feridos — eu não queria carregar nas costas o peso de poder ser responsável pela derrota de um país. Eu não estava nisto sozinha, Sophie, minha parceira de caça sempre me ajudava. A nossa união era baseada apenas no interesse.

Foi num dia de caça que eu conheci aquele que seria o meu maior amor e maior inimigo.

Era noite, nossa hora preferida. Também posso sair ao sol — caso você esteja se perguntando, nenhuma daquelas lendas antigas se aplica a minha espécie, a não ser a sede de sangue. — O sol só incomoda a minha visão, meus olhos são feitos para enxergar no escuro, além disso, evito sair durante o dia, pois a minha pele pálida se destaca um pouco na multidão.

Eu caminhava entre os feridos — eram tantos — quando vi um homem que se destacava entre os demais pela sua musculatura firme e definida sob o uniforme militar, ele tentava ajudar os feridos e amenizar a dor dos moribundos, era um tipo de médico, cujo ofício foi assimilado no campo de batalha.

Ele tinha feições endurecidas diante de tantas mortes, eu me interessei em observá-lo, por enquanto, e percebi que as mortes ao redor não era nada para ele, ele só queria acabar com o sofrimento dos companheiros, espantei-me ao ver que ele só escolhia socorrer os casos mais graves, era para isso que ele estava lá, ele tinha o dever de abreviar o sofrimento dos seus companheiros, eu podia ver isso em sua mente. — ler pensamentos, esse é outro dom que eu tenho — eu não conseguia entender o porquê disso, o que ele tinha em mente? Pelo que ele poderia ter passado para aceitar uma missão como essa? — a sua mente não me revelava tal motivo.

Olhei para o céu, um brilho prateado surgia no horizonte, o rapaz também parecia fascinado com aquela linda lua cheia. Ouvi tiros ao longe e mais gritos, estavam invadindo aquele local, o rapaz se abaixou na trincheira, cinco homens apareceram. Um deles jogou uma granada perto da trincheira, eu a peguei e joguei de volta, havia cinco homens do exercito rival, dois deles ainda estavam vivos depois da explosão, mas ajudei a abreviar isso.

Já saciada e completamente recomposta voltei meus olhares para a trincheira, qual foi a minha surpresa quando não vi ninguém, ele não estava mais lá. Senti um toque em meu ombro. Olhei calmamente para o lado.

– Não estamos sós — Sophia me disse apreensiva.

– O que há? — perguntei ignorando sua agitação.

– Você não sente — olhava para os lados farejando.

– Não. O que? Diga logo Sophie — insisti.

– Cheiro de lobo.

Parei para sentir, mas não o percebi. Só conseguia sentir o cheiro de sangue, mas pude ouvir um uivo ao longe que despertou os meus sentidos, um uivo lamentoso, choroso.

Eu e Sophie resolvemos fazer uma retirada estratégica, não queríamos chamar a atenção do tal lobo, poderíamos enfrentá-lo facilmente, mas não seria prudente, logo iria amanhecer não queríamos lutar com um lobo na frente de todo um pelotão.

Antes de partir olhei novamente para a trincheira e vi alguém se mexendo, curiosa fui até lá, podia ser ele, mas para a minha decepção não era, era apenas um soldado raso ferido gravemente, ele me viu.

– Você é um anjo? — me perguntou — me leve agora, a dor… eu não a suporto mais… — suplicou.

– Venha Silvia, já nos saciamos, deixe-o — Sophie sussurrou num som inaudível aos humanos.

– Vá à frente, logo te alcanço, quero realizar o desejo desse humano — respondi no mesmo tom.

Sophie se foi, ela detestava quando eu agia fora dos planos. Curvei-me sobre o rapaz, ele ofegava.

– Me leve anjo, me leve… Acabe com a minha dor. — falou com uma voz fraca.

Ao olhar melhor para o rapaz, percebi que ele não tinha mais as pernas. Eu me abaixei e olhei em seus olhos, ele sorriu para mim tremendo. Me aproximei mais e com um beijo mortal em sua jugular dei-lhe um prazer de uma morte indolor e cheia de êxtase. Ele sorria agradecido e murmurou um obrigado em meus ouvidos enquanto eu sugava a última gota de sangue e de vida de seu corpo mutilado.

O deixei no chão, ninguém mais naquele canto da trincheira parecia vivo, alguns dos poucos enfermos próximos estavam delirantes demais para terem me visto como algo real. Fui embora, um cheiro estranho de almíscar passou por mim, enquanto eu me escondia na floresta — eu mal sabia que estava sendo observada– Sophie me esperava raivosa.

– O que deu em você? Por que fez aquilo?

– Ele me pediu — respondi.

– Ah, então se um mortal te pede algo você faz e pronto, é isso? — me disse irônica.

– Não veja dessa maneira, eu precisava fazer aquilo, você não entenderia Sophie. — disse nervosa.

– Claro que eu não entenderia, eu não entendo você aparecer para um mero mortal daquele jeito, ainda mais numa trincheira — andava e gesticulava nervosa — sabia que metade do pelotão pode ter te visto?

– E se viram, qual é o problema? — rosnei.

– Qual é o problema? Você está no seu juízo perfeito? Lembre-se: Vampiros, Identidade, Anonimato, é assim! Não nos mostramos para mais de um mortal de cada vez, ou teríamos que acabar com qualquer testemunha.

– Olhe em volta Sophie — falei exaltada — os tempos são outros! O mundo está em guerra! Quem acreditaria num soldado delirante?

Mal sabia eu que para a minha felicidade ou infelicidade alguém acreditaria… O soldado que outrora prendeu a minha atenção e que sumira sem deixar pistas cruzaria novamente o meu caminho.

A minha sede voltou depois de alguns dias. Sophie não queria voltar ao mesmo local — não era prudente — dizia ela. Eu sabia disso, mas deixei a prudência com ela. Eu resolvi seguir o meu maior impulso, voltar àquela trincheira.

Lá estava ele cuidando de alguns feridos, a maioria prestes a morrer — eu podia sentir isso, posso ouvir os batimentos cardíacos cessando ou respirações falhando. Numa guerra nessas proporções isso virou uma constante em minhas noites. — de repente ele olhou na minha direção, fui vista — Impossível –pensei me abaixando — eu estava muito bem escondida, não entendo como ele me viu.

No mesmo momento senti a coisa mais inigualável do mundo — meu ombro ardeu como se uma brasa tivesse tocado nele — me virei surpresa. Era ele.

– Own! Nossa! Você é mais fria que um cadáver! — me disse balançando o braço.

Fiquei quieta o olhando enquanto eu decidia o que fazer com ele, já que infelizmente me viu.

– Você não fala não garota? — disse — Não se preocupe, sei muito bem o que você é.

Não fiquei surpresa.

– Se quiser se banquetear aqui só escolha os que não têm mais volta, OK?

Fiquei surpresa com o que eu ouvi e não tive outra reação além de sair correndo, mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa aquela mão forte segurou o meu braço.

– Espera. Por que se vai? Não quer me matar ou algo assim, por eu saber quem você é? — me disse com extrema naturalidade, mas com olhar de tristeza.

– Posso fazer isso mais tarde — falei entre dentes enquanto puxava meu braço de maneira brusca para me livrar daquele toque quente.

– Prefiro que o faça agora — disse ele convicto.

– Essa é boa — respondi nervosa –Você quer morrer? Não acredito! Não dá para entender alguém como você. Por que você os ajuda a morrer — apontei para os moribundos — só para ter o mesmo fim? Então é isso?

– Você não conhece a minha dor — falou enquanto olhava para os corpos — não vê? A minha dor nem chega perto da deles… — pausou olhando para o chão — sim, eu quero o mesmo fim, eu mereço, eu preciso — me disse convicto.

– Pois não serei eu a te dar este gosto. Pensas que sou a tua serva para lhe fazer suas vontades?

– Você ajudou Joseph naquele dia, os outros me contaram tudo.

– Ah — bufei me lembrando dos avisos de Sophie — aquilo foi uma exceção eu estava com sede e o seu amigo naquele momento era como um chafariz para os meus olhos. — tentei mentir — Se você quer dar um fim a essa sua vida miserável, já está bem encaminhado, logo, logo o exército inimigo vai chegar, é só se atirar na frente deles. — ironizei– Não tem erro, você vai virar uma massa disforme bem rápido.

– Você não entendeu ainda. Eu quero morrer, mas eu não consigo.

– Você não tem coragem?

– Não é isso — balançou a cabeça — eu me curo rápido — disse abrindo a farda e mostrando as diversas cicatrizes.

Ao vê-las, dei um pulo para trás, senti junto um cheiro de almíscar. O mesmo cheiro que passou por mim enquanto eu e Sophie fugíamos de uma luta com um lobo.

Fui embora, essa era a única reação, aquele cheiro, eu não acreditava no que ele era, corri tanto que não podia ser vista pelos humanos. Olhei para trás por uma fração de segundo antes de cair, derrubada por garras poderosas. Em cima de mim, segurando os meus ombros, cara a cara, uma fera negra, tão negra quanto a noite. Sua respiração ofegante invadia o meu rosto, suas patas quentes me queimavam. Fiquei ali parada esperando no que isto iria dar, não queria reagir ainda, sem saber ao certo as suas intenções, dentro da minha cabeça uma voz ecuava:

“Me mate, o faça agora”

Olhei dentro dos olhos dele e senti a súplica em seu olhar.

“Por favor, o faça, não quero mais viver assim.”

Sondei a mente dele para mais detalhes, era bem confusa, mas vi alguns fragmentos, como a noite de sua primeira transformação, onde ele perdeu o controle e tirou a vida de uma jovem. Sondei mais e vi que esta jovem era a sua esposa, ambos estavam na noite de núpcias.

– Você fez algo bem feio meu amigo — a respiração dele se tornou pesada ao me ouvir — creio que você não perde mais o controle como antes, ou do contrário eu já não estaria mais aqui, não é mesmo? — afirmei.

“Eu realmente não garanto o controle– disse com as garras me apertando cada vez mais, os dentes amostra — quanto mais raiva eu sentir, mais a fera me domina” Me contou em pensamentos.

– Então estamos num dilema, pois se você perder o controle e me matar como eu poderei matá-lo — sorri, isso pareceu deixá-lo mais calmo, ouvi algumas tosses caninas — seriam sorrisos? — pensei.

Ele saiu de cima de mim, seu tamanho foi diminuindo, até que eu podia ver o soldado, peguei um pedaço velho de pano, joguei para ele se cobrir, se bem que o seu físico não era nada mal, músculos bem definidos num corpo nu.

Aproveitei esse momento e fui embora junto com os primeiros raios de sol, ele não seria tolo de virar lobo numa hora onde seria visto por todos. Mais uma vez o sol me salvou, ou teria salvado a ele? Eu me estranhei, normalmente o cheiro de lobo me dói no nariz, por que será que o daquele não me incomodava? Não queria pensar mais nisso, decidi que não voltaria mais lá. Encontrei Sophie escondida no pequeno vilarejo a muito destruído pela guerra.

– Nossa que fedor! — gritou Sophie tapando o nariz. — Pelo visto você pegou um cachorro. Parece até eu você rolou no chão. Eca!

– Pare de reclamar, o cheiro não me incomoda nenhum pouco, é só almíscar — tentei me explicar.

– Ah não Silvia, isso é cheiro de cachorro e ainda por cima molhado! — se afastou de mim com o nariz tampado.

Não quis mais discutir, terminei o papo com um sonoro: “Vou tomar um banho se é isso que você quer”.

***

Os dias se passaram como brisa não sabia se eram semanas ou meses, mas uma coisa eu não sabia, aquele homem, lobisomem não saia da minha cabeça, até o seu cheiro tão familiar para mim era inesquecível: almíscar, e não o cheiro de cachorro que Sophie falava.

Tentei levar as minhas noites que agora eram vazias, eu estava enfadada, nada mais me atraia, eu apenas saciava a minha sede e pronto. Sophie percebeu a minha apatia, ela viu que a sua companhia não era mais a mesma. Logo Sophie se foi, ela achou outro que fosse mais útil aos seus propósitos, ela se queixava de que eu deixei de viver como antes. Eu permaneci onde estava por mais alguns meses até que finalmente resolvi voltar ao campo de batalha onde aquele soldado ainda pudesse estar.Porém para a minha decepção ele não estava mais lá, as trincheiras próximas também estavam vazias, haviam apenas corpos carbonizados dentro delas. Eu sabia que ele não estava entre aqueles corpos. Resolvi que iria encontrá-lo a qualquer custo, nem que eu andasse por todo o país e assim o fiz.Logo eu era conhecida entre os soldados como o anjo da morte.

O inverno invadiu tudo com o seu abraço mortal, o frio, insuportável para os mortais, nada me fazia, tudo que eu via eram pequenos agrupamentos tentando se aquecer, muitos soldados morreram de frio, outros mais morreram pelas minhas mãos nas minhas andanças. Eu estava prestes a desistir quando um som ecoando pela floresta das montanhas me chamou a atenção, fui até lá e pude sentir o cheiro de almíscar, segui o cheiro e fui parar na entrada de uma caverna, lá eu vi enquanto a fera se alimentava de um cervo, o cheiro de sangue entrou pelas minhas narinas aumentando a minha sede. O lobo empurrou o animal agonizante para o lado e veio vagarosamente e se deitou aos meus pés oferecendo o seu pescoço.

– Não! — grunhi, já perdendo o controle, me atirei sobre a fonte de sangue, ele me olhou aturdido e incrédulo.

Lá estava eu sobre aquele corpo quente retirando-lhe as últimas gotas de vida. O lobo ainda olhava para mim, seus olhos calmos.

Eu estava me alimentando com o cervo e para a minha surpresa eu estava me saciando. Olhei para os olhos do lobo e finalmente pude ver o seu nome: Erick. Me sentei numa pedra e olhei os seus olhos.

– Não vê criança — eu disse enquanto acariciava seus pêlos — eu também sofro, sofro como você, mas a minha dor é a eterna sede, enquanto que a sua é a fome animal. Somos iguais, dois predadores, alma gêmeas talvez. Por isso não consigo lhe tirar a vida. Prefiro lhe ver definhar como um mero mortal do que tirar-lhe a vida precocemente. Não quero mais esse pecado na minha alma perdida.

O lobo se aproximou e passando por mim terminou de se alimentar do cervo, que agora jazia frio e sem vida, logo depois, já como homem ele veio até mim, me queimando com o seu calor.

– Ambos somos malditos. Como podemos? Eu nasci para combater o que você é, mas não posso… Vi que você não é como os demais da sua espécie, seus olhos — disse tocando o meu rosto — são quase humanos. Somos inimigos naturais e mesmo assim eu posso ver o mesmo amor em seus olhos que agora sinto ao te ver.

– Almas gêmeas, eu te disse. — sorri enquanto compartilhava daquele abraço quente, junto dele eu me sentia viva.

– Isso não isenta o que somos — lamentou.

– Não, mas abranda a nossa existência e isso basta.

– Não basta para mim, mas posso viver com isso, com você eu tenho autocontrole — sorriu, pude ver em suas lembranças o dia em que me encontrou e que como lobo se controlou não me fazendo qualquer mal.

Nos entregamos ao nosso amor, vampira e lobisomem. O seu calor me irradiou, o que no inicio me assustava, não por que fosse capaz de me queimar, nada disso, mas por que o seu calor me aquecia e me fazia sentir humana, vulnerável, algo que antes me deixava confusa.

Os anos se passaram, de dia ele ficava junto de mim como homem e a noite quando eu ganhava a liberdade e a sede tomava conta de mim, ele me seguia como lobo.

A grande guerra teve um fim, mas esta deixou marcas de rancor, pouco mais de vinte anos depois outra guerra teve início num país não tão distante, estávamos lá e vimos o quanto essa guerra foi tão horrível, não mais apenas soldados estavam envolvidos, civis também, e estes me causaram dor e fúria pelo seu sofrimento. Eu mudei, acho que foi esse amor estranho que eu sinto pelo Erick, me deixou mais sensível, isso de certa forma foi bom, eu não mais me preocupava em ser responsável pela derrota de um país, não só os soldados feridos estavam em minha mente, mas também todos aqueles que participavam da tortura dos inocentes dos campos de concentração e eram esses que eu via ao passear por suas mentes. Esta segunda guerra também mexeu com Erick, ele estava diferente, não mais sentia pesar a me ver atacando um soldado. Pelo contrário, eles começaram a fazer parte do seu cardápio, ainda mais depois dos animais da floresta terem desaparecido. Eu fazia questão de não deixá-lo no escuro, eu sempre indicava aqueles cuja alma era as mais sujas, essa era a nossa preferência.

Logo os outros países resolveram enxergar o horror e intervir de maneira mais eficiente, um país do atlântico, em especial, teve boa participação, não atacamos os seus soldados, a maioria deles tinha uma mente jovem e cheia de esperanças, muitos dele com alguém esperando pelo seu retorno.

A segunda guerra finalmente teve um fim, as pessoas muitas delas magras e fracas foram libertadas, as pilhas de corpos deixados em valas comuns tomaram proporções gigantescas. Erick tomou uma decisão. Aquele país não mais seria o nosso lar, precisávamos sair descobrir outros lugares que não fossem mais banhados pela guerra. Escolhemos o país do outro lado do atlântico e partimos escondidos num navio americano. Foi uma viagem longa e reconfortante, Erick conseguiu passar por um soldado, ele podia se alimentar livremente como um humano normal, eu não podia fazer isso, fui como uma enfermeira, Erick me cedia um pouco de seu sangue semanalmente para que eu pudesse sobreviver sem perder o controle de mim, sua cura instantânea não o deixava exaurido ou anêmico.

Não demorei a aprender a língua daqueles tripulantes, eu via o significado de cada palavra em suas mentes e logo a ensinava a Erick, pois desembarcaríamos como americanos.

Chegamos aquele belo país, fiquei deslumbrada com a quantidade de luzes e carros que se encontravam nas ruas, os bondinhos estavam cheios, aquele era um país populoso. Logo nos estabelecemos numa cidade vizinha, as minhas antigas jóias nos proporcionaram uma bela casa num terreno distante, próximo a uma floresta. Quase 90 anos se passaram desde o dia em que vi Erick pela primeira vez, ele não envelhecia como um humano comum, 90 anos foram apenas como três para ele.

Vivemos incógnitos. Parei de me saciar com sangue humano, Erick me convenceu a mudar, ele não queria ter que ir embora novamente, migrar como nômade, ele me provia todo o sangue necessário, a sua cura instantânea não deixava que ele sucumbisse diante da minha sede. Aos poucos a minha dor se transformava numa sede branda. Podíamos passar por um casal normal durante a noite.

A vida estava quase perfeita, mas faltava algo, ambos sentíamos a necessidade de voltar ao passado, sabíamos que tínhamos uma missão, bastava saber qual era.

Resolvemos retomar a nossa antiga vida no dia em que soubemos que outra guerra ecoava, dessa vez no oriente. Erick se alistou, fiz o mesmo, nesta época mulheres podiam participar do exército de maneira mais ativa.

A viagem, agora de avião, me permitiu agüentar a ausência de Erick, estávamos em grupos diferentes, nos encontramos no campo de batalha e não tive outra escolha a não ser voltar a me alimentar de sangue humano, não que isso me causasse algum problema, eu não sentia nenhum pesar, apenas um contentamento por retornar as velhas lembranças, quem sabe Sophie não estaria também por lá.

Separamos-nos de nossos grupos, Erick como lobo me acompanhava a noite, despojei-me de meus trajes de guerra, eu não tinha mais um lado, os soldados deixaram de serem especiais, todos de ambos os lados tinham mentes cruéis. Caminhávamos pelos desertos a procura de nossa missão, mas no fundo sabíamos qual era. Nossa missão nada mais era do que combater a crueldade.

Esta é a minha história de amor. Um amor entre inimigos naturais que nasceram para se destruírem.

Quando estiver lendo essa história provavelmente estarei longe, quem sabe ainda no oriente ou em qualquer outro lugar em guerra, afinal gostamos de equilibrar as coisas dando uma mãozinha, mas sem nunca realmente assumir um lado. Não temos pátria, temos apenas um ao outro e isso me basta.

Deixo esta história para que todos possam conhecê-la e que possa ser passada aos de minha espécie e de Erick, a união entre lobos e vampiros é possível. Tenha certeza. Cabe apenas achar a pessoa certa. E esta pode estar bem perto de você, basta olhar em volta com outros olhos, outros sentidos, não os de predadores ou de presa, mas apenas olhos livres de medos e preconceitos, apenas olhos humanos.

**FIM**
Andréa Ferrer

Andréa Cisne

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